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1.7.07

De quem é a culpa?


O IDEB ( Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é o mais novo indicador de desenvolvimento criado pelo Ministério da Educação. Ele tem por objetivo nortear as políticas de melhorias na qualidade das escolas públicas do país. Ele considera o desempenho dos alunos nos exames Prova Brasil e SAEB , assim como as taxas de aprovação. Unindo estes três indicadores temos o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB).

Os dados recentes do IDEB apontam que no nosso país temos hoje, um índice de 3,8 e que a meta é atingir 6 até 2021.

O IDEB foi utilizado também para identificar os mil municípios com os piores índices de qualidade de ensino. Estes municípios receberão apoio do MEC. Poderão contar também com uma verba extra do governo federal.


Penso que quando um indicador criado pelo próprio governo mostra que a situação do ensino básico não está nada bem, muita coisa deve ser feita. E isso não inclui tão somente apoio pedagógico, técnico ou financeiro.
Vai muito além...
Nenhum programa que almeje mudanças profundas na educação irá ter êxito se não estiver vinculado a um outro muito maior, que vise uma transformação social profunda.
Nessa perspectiva, não é na escola apenas que se deve travar a luta contra o fracasso escolar. Não se trata de uma solução educacional, mas sim de transformações da estrutura social como um todo.

Quando se divulga índices como estes e se diz que as escolas com os piores índices receberão ajuda, a meu ver o objetivo é apenas simular soluções e eximir responsabilidades.

Assim, enquanto nossos governantes trabalharem com a hipótese de que o problema da educação no nosso país é apenas um problema técnico, pedagógico ou financeiro, não teremos soluções significativas para os problemas atuais.

Nesse sentido, só a eliminação das discriminações e das desigualdades sociais e econômicas poderiam garantir o sucesso de algum programa ou projeto que vise a melhoria da qualidade do ensino.

Até 2021?

Considerando que mais de 99% das escolas ficaram abaixo da média 6 no índice do IDEB penso que a situação está pior do que pensávamos. Mas divulgar o resultado chamando a atenção para as escolas com os piores índices, reforça a idéia de que o problema da educação no país é um problema exclusivo da escola e seus membros e deixa a cargo de cada uma a busca por soluções. Ora, isso não passa de mistificação, e, portanto,uma tentativa de passar a responsabilidade do fracasso escolar para os alunos e seus professores.
Sendo assim, não é difícil de prever que em 2021 estaremos discutindo a respeito dos mesmos problemas... ainda sem solução.


Para saber como foi o desempenho da sua escola acesse o site do
IDEB







31.3.07

Escola Eficaz

COMO APERFEIÇOAR AS ESCOLAS PARA QUE MAIS ALUNOS
APRENDAM MAIS

Boudewijn A. M. van Velzen

Nas últimas décadas tem-se debatido, em países do mundo

inteiro, duas grandes questões:

• Quais são as características das escolas eficazes?

• Como aperfeiçoar as escolas menos eficazes?

A primeira questão é importante porque precisamos saber o que

devemos implementar nas escolas, se quisermos fazer com que

mais alunos aprendam mais.

Mas, respondida esta questão, a segunda torna-se vital, pois

implica em identificar as medidas a serem tomadas, dentro das

escolas e fora delas, para que sua prática passe realmente a

promover o sucesso de todos.

Refletir sobre os dois temas, portanto, é essencial para todos os

envolvidos no esforço de aperfeiçoar a qualidade da educação.

Neste artigo, apresentaremos uma descrição concisa das

respostas que os pesquisadores vêm oferecendo a essas questões

cruciais.

1. CARACTERÍSTICAS DAS ESCOLAS EFICAZES

Num estudo recente, REYNOLDS et al. (1996, p. 36-56)

apresentam uma síntese das características de escolas eficazes,

resultante da análise de um número considerável de pesquisas

sobre eficiência das escolas.

1. 1. ALUNOS MOTIVADOS

Escolas eficazes são aquelas que conseguem motivar (quase) a

totalidade dos seus alunos a aprender tanto habilidades básicas

quanto metacognitivas.

É importante despertar no aluno a vontade de dedicar o maior

tempo possível a atividades de aprendizagem, fazendo uso

intensivo das oportunidades de ensino que lhe são oferecidas. Isto

evidencia que, no final das contas, o aluno é o fator determinante

no processo. Um currículo sobrecarregado torna impossível a

aprendizagem. Além disso, é necessário fornecer aos estudantes

oportunidades concretas de aprenderem: materiais de estudo e

livros atraentes e convidativos, por exemplo. O que nos leva

automaticamente aos responsáveis pela oferta destas

oportunidades de aprendizagem.

1.2. PROFESSORES COMPETENTES

Os professores, em sala de aula, são responsáveis pela

implementação de elementos importantes elementos do

currículo, tais como:

• objetivos e conteúdo das lições claros e explícitos;

• estrutura e transparência do conteúdo;

•emprego de planos de aula;

• avaliação sistemática dos resultados do aluno, oferecendo o

feedback positivo e a instrução adicional.

Além disso, eles podem decidir como agrupar os alunos na

classe. É preciso lembrar que a eficácia destes grupos de trabalho

depende, em muito, dos materiais diversificados que o professor

utiliza, da maneira como é feita a avaliação, do modo como é

oferecido o feedback e da forma como as informações

suplementares são apresentadas.

O currículo e as formas de agrupamento dos alunos, em si

mesmos, representam apenas condições para o sucesso. O fator

mais importante é o próprio professor, o ser humano que está à

frente da classe. Ele pode exercer grande influência.

Esta possibilidade, é claro, depende do sistema de ensino, do

país e da escola em questão.

Nem todos os currículos nacionais ou estaduais possuem

objetivos claros, estruturam os conteúdos de forma transparente,

prevêem emprego de planos de aula e avaliação dos resultados.

Nem todas as escolas realmente envolvem desde o início os seus

professores na realização de mudanças educacionais concretas. E,

em muitos casos, o grande número de alunos por sala de aula

limita as variações nas formas de agrupamento.

No entanto, só o professor pode proporcionar:

• uma organização calma e ordenada da classe;

• uma forma inteligente de acoplar sistematicamente o trabalho

da classe às lições de casa;

O professor competente é essencial a qualquer proposta de

educação em que se pretenda que mais alunos aprendam mais.

Porém, todas as pesquisas demonstram que, sozinho, o docente

pouco irá avançar. Ele precisa da escola.

1.3. ESCOLAS COM OS NECESSÁRIOS REQUISITOS EDUCACIONAIS
E ORGANIZACIONAIS

Na escola são criadas as condições didáticas e organizacionais que

permitem um bom desempenho do professor em sala de aula, com seus

alunos. São condições educacionais importantes:

• consenso entre a direção da escola e os membros do corpo

docente quanto a métodos didáticos, material de ensino,

formas de agrupamento, atitudes dos professores;

• um sistema de avaliação dos resultados do aluno que

facilite o seu acompanhamento durante todo o curso,

evitando problemas ou corrigindo-os numa fase inicial.

São condições organizacionais importantes:

• cultura voltada à melhoria da eficácia do ensino, tendo como

centro a aprendizagem do aluno e que se manifesta, entre

outros aspectos, pela presença de coordenação/supervisão

(liderança) e profissionalismo;

• planejamento sistemático e bem concebido das atividades de

aprendizagem, no qual o mínimo de tempo possível seja

desperdiçado -por exemplo, combatendo as faltas de alunos e

professores e estruturando melhor as aulas;

• ênfase à construção de um ambiente calmo e ordenado na escola;

• consenso entre a direção e os professores no tocante à
missão institucional da escola, ou seja, o que ela pretende fazer, o por quê, como.

Escolas eficazes dão muita importância à coerência entre os

vários participantes da equipe escolar. Todo o pessoal (tanto a

direção como os docentes) deve estar disposto a assumir a

responsabilidade pela coerência da escola.

Isto significa que a política de uma unidade escolar não pode

ser modificada muito freqüentemente. Os professores e a

direção precisam de tempo para se familiarizar com eventuais

mudanças. Esta realidade colide às vezes com as idéias e os

interesses da sociedade ou das autoridades. Evidencia-se, por

outro lado, a importância do papel desempenhado pelos

diretores das escolas no processo de inovação educacional.

1.4. UM CONTEXTO ESTIMULADOR

Uma escola (e com certeza uma escola pública) nunca está

isolada no bairro, cidade ou região. A escola tem laços com as

Diretorias de Ensino, com as Secretarias Estadual e Municipal

de Educação, com o Ministério da Educação, com os Conselhos

de Educação, com as autoridades, com outras escolas, com

empresas e instituições. Chamamos a isto o contexto da escola, o qual pode

contribuir para sua eficácia mediante:

• uma política (nacional, estadual, municipal) visando

especificamente aumentar a eficácia das escolas;

• um método sistemático de avaliar e de testar a qualidade do ensino;

• educação continuada, apoio aos docentes e à direção, visando à

eficácia;

• o financiamento diferenciado das escolas, com base nos

resultados dos alunos (levando em conta os antecedentes e o

meio social da clientela).

Além disso, é o contexto que deve oferecer parâmetros para que

se possa lidar com o tempo necessário ao ensino. E, por fim, o

contexto pode promover a eficácia, proporcionando um bom

currículo nacional/estadual e colocando à disposição os

recursos a ele associados.

Resumindo, podemos afirmar que os professores dispõem de

muitas possibilidades para estimular os alunos a

aprenderem mais, desde que a escola crie, de forma

consistente, as condições didáticas e organizacionais necessárias.


2. TORNANDO AS ESCOLAS MAIS EFICAZES

Todo mundo quer que as escolas sejam eficazes. É bastante triste

constatar que os alunos, depois de anos de escolaridade, não

aprenderam nada, ou aprenderam coisas erradas. Em sua maioria, os

docentes ficam muito frustrados quando, de repente, o aluno abandona

a escola. Para o professor, cada desistência é uma decepção.

Não obstante, a prática mostra que não é nada fácil concretizar

uma educação eficaz em um grande número de escolas.

Aperfeiçoar escolas é um processo complexo, que envolve muitos

agentes em diferentes níveis: sala de aula, escola, Diretoria Regional,

órgãos centrais da Secretaria de Educação, prefeituras, Conselhos.

Estes agentes, em todos os níveis, deveriam
colaborar uns com os outros.

Reformas em grande escala, nas quais as escolas e os
professores são considerados exclusivamente como agentes
executores de uma política com a qual não se identificam, têm resultado em
fracasso.

Leia o texto na íntegra

11.2.07

No tempo em que os bichos falavam*



Houve um tempo em que os bichos falavam, e eles falavam tanto que Esopo resolveu recolher e contar as histórias deles para todo mundo.

Esopo era escravo de um rei da Grécia, e divertia-se inventando uma moral para as histórias que ouvia dos animais.

Na verdade, nem todos os moradores do país eram capazes de entender a linguagem dos animais, mas Esopo era. Sobretudo dos pequeninos, que falavam muito baixinho, como por exemplo os ratinhos que moravam num buraco da parede da cozinha do palácio.

Um dia, quando limpava o chão da cozinha, Esopo ouviu uns ruídos que vinham de dentro do buraquinho. Os ratinhos estavam muito agitados e preocupados pois, o rei havia colocado um gato grande e forte para tomar conta dos petiscos reais e o tal gato não era de brincar em serviço, já tinha devorado vários ratos.

Esopo apurou os ouvidos e pôde ouvir tudo o que os ratinhos diziam:

Um deles, muito espevitado, parecia ser o líder e, de cima de uma caixa de fósforos, discursava:

— Meus amigos, assim não é mais possível, não temos mais paz e tudo porque o rei resolveu trazer aquela fera para cá. Precisamos fazer alguma coisa, e logo, porque senão esse gato vai acabar com a nossa raça!

Era uma assembléia de ratos e todos estavam muito empenhados em solucionar o problema que os afligia: um gato, grande e forte, que o rei havia mandado colocar na cozinha.

Já tinham perdido vários amigos nos dentes afiados da fera: o Provolone, o Roquefort, o Camembert e o pobre Tatá, o mais amado de todos.

Planejaram, planejaram e não conseguiram chegar a nenhuma conclusão que agradasse a todos. Precisavam de estratégias eficazes e seguras.

Uns achavam que deveriam matar o tal gato; outros diziam que era impossível: "Como matar uma fera daquelas?"

Horácio estava quase convencido de que a sina de seu povo era morrer entre os dentes do gato. Com lágrimas nos olhos, já ia descendo da caixa de fósforos quando Frederico, um ratinho muito tímido que nunca falava, resolveu dar sua opinião:

— Como vocês sabem, eu não gosto muito de falar, por isso serei rápido, mas antes vocês vão responder a uma pergunta: Por que esse gato é tão perigoso para nós, se somos tão ágeis e espertos?

E Horácio respondeu:

— Ora, Frederico, esse gato é silencioso, não faz nenhum barulho. Como é que vamos saber quando ele se aproxima?

— Exatamente como eu pensei. Me perdoem a modéstia, mas acho que a idéia que tive é a melhor de todas as que ouvi aqui .Vejam só, é simples: Vamos arrumar um guizo, pode ser até aquele que pegamos da roupa do bobo da corte. Lembram? Aquele que achamos bonitinho e que faz um barulho enorme.

Os ratos não estavam entendendo nada, para que serviria um guizo?

Frederico tratou de explicar:

— A gente pega o guizo e coloca no pescoço do gato. Quando ele se aproximar, vamos ouvir o barulho e fugir. Não é simples?

Todos adoraram a idéia. Era só colocar o guizo que todos ouviriam o gato se aproximar.

Todos os ratos foram abraçar Frederico e estavam na maior euforia quando, de repente, um ratinho que não parava de roer um apetitoso pedaço de queijo, resolveu perguntar:

— Mas quem é que vai colocar o guizo no pescoço do gato?

Todos saíram cabisbaixos. Como não haviam pensado naquilo antes?

Era o fim da euforia dos ratinhos. Para Esopo, a moral da história era a seguinte: "Não adianta ter boas idéias se não temos quem as coloque em prática". Ou ainda: "Inventar é uma coisa, colocar em prática é outra".

_______________________________________________
Uma releitura de Esopo feita por Georgina Martins
e ilustrada por Evandro Luiz


Este texto propicia uma ótima reflexão para os dias de planejamento. Ele mostra que bons planos de aula só serão eficientes se por trás deles houver muita discussão, afinal, planejar é um construir e reconstruir coletivo, concordam?


*Texto retirado da Revista Nova Escola edição 148 ( dezembro/2001)

26.12.06

Avaliar: o quê? para quê? para quem?

"Era uma vez...

Uma rainha que vivia em um grande castelo.
Ela tinha uma varinha que fazia as pessoas bonitas ou feias, alegres ou tristes, vitoriosas ou fracassadas. Como todas as rainhas, ela também tinha um espelho mágico.

Um dia, querendo avaliar sua beleza, ela perguntou ao espelho:
— Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?

O espelho olhou bem para ela e respondeu:

— Minha rainha, os tempos estão mudados. Esta não é uma resposta assim tão simples. Hoje em dia, para responder a sua pergunta eu preciso de alguns elementos mais claros.

Atônita, a rainha não sabia o que dizer. Só lhe ocorreu perguntar:

— Como assim?

— Veja bem, respondeu o espelho. — Em primeiro lugar, preciso saber por que Vossa Majestade fez essa pergunta, ou seja, o que pretende fazer com minha resposta. Pretende apenas levantar dados sobre o seu ibop no castelo? Pretende examinar seu nível de beleza, comparando-o com o de outras pessoas, ou sua avaliação visa ao desenvolvimento de sua própria beleza, sem nenhum critério externo? É uma avaliação considerando a norma ou critérios predeterminados? De toda forma, é preciso, ainda, que Vossa Majestade me diga se pretende fazer uma classificação dos resultados.

E continuou o espelho:

— Além disso, eu preciso que Vossa Majestade me defina com que bases devo fazer essa avaliação. Devo considerar o peso, a altura, a cor dos olhos, o conjunto? Quem devo consultar para fazer essa análise? Por exemplo: se consultar somente os moradores do castelo, vou ter uma resposta; por outro lado, se utilizar parâmetros nacionais, poderei ter outra resposta. Entre a turma da copa ou mesmo entre os anões, a Branca de Neve ganha estourado. Mas, se perguntar aos seus conselheiros, acho que minha rainha terá o primeiro lugar. Depois,ainda tem o seguinte — continuou o espelho: — Como vou fazer essa avaliação? Devo utilizar análises continuadas? Posso utilizar alguma prova para verificar o grau dessa beleza? Utilizo a observação?

—Finalmente, concluiu o espelho, — Será que estou sendo justo? Tantos são os pontos a considerar...”


(adaptado de Utilization-Focused Evaluation. Londres, 1997, de Michael Quinn Patton)


Pensando a avaliação nesse contexto percebo o quanto ela é importante e necessária nas escolas atualmente, uma vez que nos últimos anos tem se difundido muito uma concepção de escola autônoma e com gestão participativa. Porém, não me refiro aqui à avaliação da aprendizagem, aquela que todo professor faz com seu aluno. Mas sim, a avaliação da escola como um todo, ou seja, como se deu ao longo de determinado período, as relações, os encaminhamentos, enfim, dizer quais foram os entraves e os facilitadores do desenvolvimento do trabalho escolar. Isso significa avaliar para tomada de decisão,como diria Luckesi, são pontos de partida e não de chegada.

Não queremos ser como a rainha que tinha a intenção apenas de constatar a sua beleza. Precisamos ser e agir mais como o espelho mágico, que é coerente com sua concepção e vê a avaliação como prática social, intencional e comprometida com uma visão de mundo.

E finalmente, um recadinho para aqueles que se propõem a serem avaliados: estejam preparados para ouvir todas as opiniões, as boas e as nem tão boas assim, e principalmente, não se empolguem demais com os elogios a ponto de transformar-se na rainha que só quer constatar o que já existe e acima de tudo, não se melindrem com as críticas a ponto de transformar a avaliação em um mal estar geral!

O segredo é aceitar tanto elogios quanto críticas de forma a transformá-los em reflexão comprometida com a melhoria das condições de trabalho, almejando assim, a tão sonhada educação de qualidade!