15.10.07

Quem é?

Quem é esse estranho personagem?

Homem ou mulher, velho ou moço, que em sua ação é ao mesmo tempo músico e regente?

Quem é essa estranha figura que em seu trabalho chora e ri, fala e escuta, conta e encanta?

Quem é esse ator que precisa entusiasmar o grupo e ao mesmo tempo atender o apelo individual?

Precisa manter a ordem sem perder a serenidade; falar a todos, ouvindo a cada um?

Quem é esse estranho personagem?

Quem possui a indômita magia para ajudar que todos desabrochem e se expressem, aprendam e se transformem, construam e sonhem?

Quem é esse estranho malabarista que necessita se equilibrar entre conteúdos e competências, limitando excessos, favorecendo autonomia, acordando inteligências, provocando pensamentos?

Quem é esse anjo que empresta a filho dos outros, o tempo que para os seus não tem e que cobrado pelos desafios da vida sempre dura, não consegue apagar a emoção que a rotina propicia?

Quem é esse estranho personagem?

Que necessita sempre resolver, saber, decidir, propor, desafiar sem oportunidade de perder o instante, sem o recurso de deixar para depois?

Quem possui essa aura para esgotado, renovar esforços; combalido encontrar energia? Quem pode, ao entrar em cada classe, refazer-se novo como se aquela fosse a única?

Quem é esse estranho personagem?

Que aprende a empatia que ensina, pratica a solidariedade que prega, administra a progressão do currículo que deseja, avalia com olhar abrangente, vibra com sucessos que não são seus.

Quem é esse distribuidor de sementes que não colhe para uso próprio os frutos que plantou?

Quem é esse estranho personagem?

Quem é esse teimoso otimista que confia no aluno, que acredita no amanhã, que espera sempre pelo sonho?

Quem é esse estranho personagem?

Se ignorar a resposta, busque no espelho prezado professor...

(Celso Antunes)

14.10.07


Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda." (Paulo Freire)

29.9.07

2º Simpósio de Educação Paulus

"Um olhar sobre o ensinar e o aprender" foi o tema do 2º Simpósio de Educação que aconteceu no dia 27/09/07 na FAPCOM ( Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação). O evento foi promovido pela Editora e Faculdade Paulus.

Confira abaixo os principais momentos do Simpósio:



Palestra "Novas maneiras de ensinar, novas formas de aprender" (Celso Antunes):

O professor no nosso país está com uma imagem desgastada e desvalorizada. Qualquer outro profissional se sente capaz de avaliar e até discutir sobre a função do professor. Mas o contrário não acontece; o professor tem consciência da sua limitação. Em outros países podemos perceber que o professor é um profissional que ocupa lugar de destaque na sociedade. No Japão, por exemplo, o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor, pois segundo os japoneses, numa terra que não há professores não podem haver imperadores.

Mas por que no Brasil o professor não tem prestígio?
Segundo Celso Antunes, o professor para adquirir esse prestígio tem que acompanhar as mudanças que ocorrem num ritmo cada vez mais acelerado. Não podemos acreditar que ainda hoje nossa tarefa é apenas informar sobre os conhecimentos acumulados historicamente.
Hoje, a informação está em todo lugar e bem atualizada. Ou seja, a escola não é mais lugar privilegiado de informação. O papel do professor por esse motivo deve ser repensado.
Nesse sentido, há uma brutal diferença entre dar aula ontem e dar aula hoje.

Mas como mudar?

O autor apresenta cinco elementos que na sua opinião são fundamentais para mudar a educação brasileira e por conseqüência melhorar a imagem do professor:

1) A Aula: a aula deve ser o momento de usar a fala. Falar é uma ferramenta imprescindível para o aprender. Proibir o aluno de falar é impedir a sua aprendizagem. Porém, há duas falas diferentes no contexto escolar: a fala descontextualizada do aprender ( que não provoca o processo de aprendizagem) e a fala canalizada ( que organiza o aprender). Para chegar a uma fala canalizada com os alunos é necessário aprender novas formas de dar aula. Mesmo porque, professor não pode ser escravo de apenas um tipo de aula. Hoje, percebemos que muitos professores dão aulas expositivas nos 200 dias letivos. A aula pode ser expositiva, mas também pode ser através de projetos, seqüencias didáticas, roda da conversa, jogo de palavras, enfim, outras formas que possibilitem os alunos usarem a sua fala de forma organizada

2) O Conteúdo:
os conteúdos são os ensinamentos que são passados aos alunos. O conteúdo não pode ser metálico e vazio. Devemos perceber-los como ferramentas capazes de desenvolver competências. O aluno tem que aprender a argumentar, a pensar, a ter idéia. O mundo está acontecendo e os conteúdos estão a margem desses acontecimentos. Por isso mesmo os conteúdos devem ter "cheiro, gosto, cor e alma". Só assim poderemos formar gente e não apenas intelectuais.

3) O Professor
:
o professor deve ser o propositor, o interrogador, o instigador, aquele que ajuda a aprender. Assim, ele deve levar para a sala de aula alguns pontos de exclamação, mas principalmente, muitos pontos de interrogação. Os alunos devem ser induzidos a pensar, a encontrar argumentos. É como diz o ditado popular: em vez de dar o peixe, devemos ensinar a pescar.


4) A Linguagem
:
alguns professores acreditam que o texto é a única forma de ensinar algo ao aluno. Mas a escola é um espaço propício para o convívio de diferentes linguagens. A música, a mímica, a dramatização, a colagem, o slogan, a escultura são apenas alguns exemplos de linguagens que podem estar presentes no dia-a-dia da escola.


5) A Avaliação
: a proposta é olhar a avaliação como quem vê caminhos. É ter olhos para o amanhã, para o progresso. Avaliar apenas para dar uma nota não faz sentido algum.

O professor Celso Antunes finalizou a palestra com a seguinte frase: "quem na terra assumi novas formas de ensinar e aprender não precisa pedir licença no céu, pode ir entrando..."


Palestra "A escola que sempre sonhei" ( Rubem Alves)

Rubem Alves
diz sempre ter sonhado com uma escola ideal, mesmo sem saber ao certo da sua existência. Mas ela existe! E está em Portugal. É a Escola da Ponte.
Quando a viu pela primeira vez em 2000, tendo como guia um aluna de 9 anos, lembrou a frase de Fernando Pessoa para a mulher amada:"Quando te vi, amai-te já muito antes..."

Mas ele nos alerta: para entender a Escola da Ponte precisamos esquecer quase tudo o que sabemos. Primeiro é preciso esquecer aquilo que somos para sairmos da prisão do que somos hoje. É submeter ao esquecimento, desarticular o que sabemos. Só assim vamos conseguir ver coisas novas. Isso acontece porque precisamos nos livrar dos jeitos de ser que se sedimentaram a nós, e que nos levam a crer que as coisas devem ser do jeito que são.

Assim, a escola ideal de Rubem Alves seria como a escola que ele conheceu em Portugal:
  • uma escola sem classes separadas por série;
  • com salas de aula sem divisões, com mesinhas baixas, próprias para as crianças;
  • os alunos poderiam andar livremente pela sala;
  • os professores seriam orientadores;
  • pequenos grupos de alunos seriam formados a partir do interesse comum por um assunto.
Para Rubem Alves, precisamos de uma escola retrógrada. Pois retrógrado quer dizer "que vai para trás". Precisamos então de uma escola que vá para trás dos "programas" científica e abstratamente elaborados e impostos. "Uma escola que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido, mas o corpo da criança que vive, admira, se encanta, se espanta, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, se machuca, brinca."


Workshop "Inclusão de pessoas com deficiência na escola- um desafio a ser enfrentado" (Profª Dra Celina Camargo Bartalotti)

Esse tema nos mobiliza porque nos obriga a repensar vários conceitos: de escola, de aprendizado, de sucesso e de docência. Estes conceitos são construídos na nossa experiência de vida, como alunos e professores. A experiência que vivemos como alunos, e a que vivemos até pouco tempo como educadores não era inclusiva. A inclusão nos pegou de certa forma desprevenidos.
A discussão é: qual a qualidade das inclusões que estão acontecendo nas escolas?
Existem inclusões precárias, marginais e instáveis. Que significado esses tipos de inclusões tem na vida do sujeito?

Para termos uma inclusão em todos os sentidos é necessário haver a democratização dos espaços sociais, ter a diversidade como valor e uma sociedade para todos.

Portanto, incluir não é só colocar junto! É respeitar a diferença como constitutiva do ser humano.
O valor, positivo ou negativo, que se atribui à diferença é algo construído nas relações humanas.
Dessa forma, a questão central da inclusão não está na diferença em si, mas no valor a ela atribuído.

Inclusão na Escola:

Para pensar a inclusão na escola temos que superar a lógica de agrupar os iguais.
A sala de aula é espaço de diferença, de heterogeneidade.

Quando falamos de escola inclusiva, falamos de cidadania.
A lei garante apenas o direito, a inclusão efetiva fica por conta da escola.

Princípios básicos para a inclusão na escola:
  • Todos são capazes de aprender;
  • Nós somo capazes de ensinar a todos.
No entanto, nem todos aprendem da mesma forma, ao mesmo tempo, a mesma coisa.
Há diferenças no processo que precisam ser respeitadas.

Então, respeitar a diferença no processo é respeitar a diferença no resultado, é repensar o conceito de sucesso na escola. Romper com a idéia de sucesso homogêneo. Precisamos individualizar o olhar sobre o sucesso. Temos que descobrir o sucesso para cada um. Não se trata de nivelar por baixo, mas respeitar a sua individualidade.

Cotidiano da escola inclusiva:

Relações criança-criança:
  • aprendizagem inter-pares;
  • proporcionar espaços de aprendizagem cooperativa que possibilitem às crianças trocar informações, serem parceiros
Cooperação criança-criança e a mediação do professor:
  • simplesmente colocar as crianças lado a lado não garante interações positivas;
  • a mediação do professor é essencial para que todas as crianças possam tirar o mauior proveito possível da parceria.
Cooperação e organização da sala de aula:
  • presença de regras claras;
  • respeito mútuo;
  • aceitação e compreensão das necessidades do outro;
  • processo aberto e dinâmico de negociação onde o aluno se sente responsável e participante.
Cooperação entre educadores:
  • a escola inclusiva deve se constituir numa real comunidade escolar inclusiva desde a construção do seu Projeto pedagógico;
  • deve ter claro para todos: quais objetivos tem, que projetos propõe para que estes objetivos sejam alcançados, como as várias turmas e todos os alunos podem participar desse projeto
Incluir e ensinar não é fácil. Exige transformação na escola e no fazer do educador.

O educador não pode ver a deficiência como sinônimo de "menos". Pois assim tratada, ela passa a idéia de perda, de desvio da norma. Se há perda há algo a ser encontrado, recuperado ou normalizado. Temos então que correr atrás do prejuízo? Tentar tornar a criança com deficiência o mais parecida possível com o que chamamos de normal? Se tivermos essa concepção nosso trabalho já trás consigo o fracasso.

Por outro lado, se vermos a deficiência como diferença significativa (termo usado por Ligia Amaral) compreenderemos as peculiaridades do desenvolvimento humano permeado pela deficiência. Vamos perceber então que ninguém é incluído o tempo todo, pois somos diferentes um do outro. E é isso que nos torna nós mesmos.

Formação na inclusão:

O que não é:
  • uma formação que dá todas as respostas;
  • uma formação que fornece estratégias prontas;
  • uma formação que "habilita" o educador para lidar com todo e qualquer problema em sala de aula.
O que é :
  • uma forma de trabalhar o olhar do educador sobre o aluno;
  • uma forma de informar o educador sobre as peculiaridades de seus alunos;
  • uma forma de ajudar o educador a compreender as necessidades de seus alunos, a saber que tipo de ajuda precisa e onde encontrá-la.
"Na sociedade inclusiva não somos todos iguais, mas celebramos nossas diferenças!"

28.9.07

Mano Suplicy


Na última 5ª feira (dia 27/09/07) o senador Eduardo Suplicy concorreu ao prêmio VMB (Vídeo Music Brasil) 2007 categoria Web Hit. A indicação veio após a repercussão do vídeo do senador declamando um rap dos Racionais MC's (O Homem na Estrada) durante uma sessão da Comissão de Constituição e Justiça de redução da maioridade penal, em abril deste ano.

O senador assumindo posição contrária à redução da maioridade penal tentou sensibilizar os colegas do senado com o rap. Mas é claro que se tratando de Eduardo Suplicy não bastava apenas por o CD ou ler a letra do rap. Tinha que ser algo a sua altura! Daí o sucesso do vídeo...

Muitos podem até se surpreender ao assistir o vídeo. Até achar estranho o senador declamando um rap. Mas a verdade é que o caso do senador com o rap é bem mais antigo.

Em 2000 ele foi aclamado como canditado dos rappers brasileiros à Presidência e até participou da entrega de prêmios às melhores bandas de rap nacional no mesmo ano.

Em 2003 fez um show de rap na sede da FGV para cerca de cem estudantes ( ah, se fossem tempos de YouTube com certeza teríamos mais esse vídeo para ver...).

Em 2005 Suplicy cantou no programa do Jô essa mesma música (Homem na Estrada) e até fez a performance do "tá´-tá-tá ".

Já esse ano na Virada Cultural em São Paulo assistiu ao show dos Racionais MC's e até defendeu o grupo após a confusão que aconteceu no local entre policiais e o público ali presente.

Bem, podemos deduzir disso tudo algumas coisas:
  1. Rap é o estilo musical preferido do Suplicy;
  2. Ele é fã de carteirinha dos Racionais MC's;
  3. Os demais senadores não gostam de rap uma vez que votaram a favor da redução da maioridade penal ( ou seja, contrários ao que Suplicy queria)

Confira abaixo o vídeo "Suplicy canta Racionais" e recomendo também a leitura da letra da música Homem na Estrada que por sinal me agrada muito não só pela beleza da letra, de autoria de Mano Brown, mas principalmente por contar como ninguém a realidade da periferia.


23.9.07

IV Seminário Teorias e Práticas com crianças e adolescentes- por uma Cidade Educadora

No dia 20 de outubro vai acontecer o "IV Seminário Teorias e Práticas Sociais com crianças e adolescentes"

O Seminário faz parte da "Semana da Criança e do Adolescente" a realizar-se de 15 a 20 de outubro, no Centro de Práticas Esportivas da USP.

Nos seminários dos anos anteriores os eixos geradores foram: "Compartilhando Experiências" (2004), "Educação e Comunidade" (2005), "Políticas Públicas" (2006).

Esse ano o eixo de discussão será "Por uma Cidade Educadora". E não foi por acaso que esse tema foi escolhido. Ele já é uma preparação ao "Congresso Internacional das Cidades Educadoras" que ocorrerá na cidade de São Paulo em abril de 2008.

Daí a importância desse seminário: momentos de reflexão, capazes de ampliar nossa capacidade de atuação, possibilitando assim a construção de uma verdadeira cidade educadora.

Com esse tema é proposto um desafio aos educadores: romper com a cultura de valorização do individualismo em detrimento do bem-estar coletivo.

A questão que se coloca é: o que nos cabe fazer como educadores de instituições que trabalham com crianças e adolescentes?

Deu pra perceber que a discussão vai longe...

Programação:
  • 8h00 às 8h30 - Credenciamento
  • 8h30 às 9h00- Abertura oficial
  • 9h00 às 12h00- Mesa de abertura "Por uma Cidade Educadora"
  • 12h00 às 14h00- Intervalo para almoço
  • 14h00 às 17h30- Rodas de Diálogo (apresentação de relatos e debates).
  • Quatro rodas de diálogo simultâneas a escolher: " A Cidade e as Ruas", "A Cidade e a Juventude", "A Cidade e a Cultura" e "A Cidade e o Esporte".

    Para quem se interessou pelo tema as inscrições para o seminário começam nesta segunda-feira (24/09).

    Serviço:
    “IV Seminário Teorias e Práticas Sociais com crianças e adolescentes - por uma Cidade Educadora”
    Local: CEPEUSP
    Praça 02, Prof. Rubião Meira, 61 - Cidade Universitária
    Data: 20/10/07
    Horário: das 8 às 18 h
    Gratuito

    Se tiver dúvidas ou quiser mais informações entre em contato com a equipe Projeto Esporte Talento (CEPEUSP) responsável pelo seminário: Telefone: 3091-3592 e e-mail: talento@usp.br.

26.8.07

Ed, o robozinho que sabe tudo sobre meio ambiente


ED é um robô muito simpático, criado pela Insite para a Petrobras com uso da tecnologia Inbot.
Ele é um robô com Inteligência Artificial, capaz de conversar com os usuários como se fosse um atendente real. Adultos e crianças vão adorar conversar com ele!
Os assuntos são variados e bem atuais:
  • uso racional de energia;
  • derivados de petróleo;
  • meio ambiente;
  • gás natural;
  • dicas de economia;
  • qualidade do ar;
  • biocombustíveis;
  • programas educacionais;
  • fontes alternativas de energia.
O objetivo é que o simpático Ed ajude a Petrobras na conscientização em relação ao uso de energia e preservação do meio ambiente. Quem fornece o conteúdo que forma a base de conhecimento do Robô é o CONPET (Programa Nacional da Racionalização do uso dos derivados do Petróleo e do Gás Natural).

Saiba como o Ed foi criado.

Clique aqui para conversar com o Ed

O Casamento Perfeito

Recebi da querida amiga Jenny Horta a sugestão desse vídeo que fala sobre a relação Tecnologia versus Metodologia.



Fica evidente no vídeo que não adianta ter todo um aparato de recursos se não há por parte dos envolvidos o desejo de desenvolver um trabalho capaz de proporcionar ao aluno uma aprendizagem abrangente e contextualizada que integre o uso das mídias na prática pedagógica.
Mas como resolver esse impasse? Como chegar a um denominador comum que contemple recursos e envolvimento dos educadores nos projetos? Penso que para ha
ver um casamento perfeito nesse caso é necessário passar por algumas etapas que estão sendo esquecidas ao longo do caminho. É como em um relacionamento. As pessoas não costumam casar de um dia pro outro, não é verdade? E se isso acontece, quase sempre está fadado ao fracasso. Por que então querer que o professor olhe a primeira vista para tantos recursos tecnológicos e faça juras de amor eterno? Há que se ter um tempo para paquerar, namorar, e por que não, para os mais "moderninhos", "ficar"?

Acredito que se tivermos esse tempo para conhecermos de forma abrangente todos estes recursos, certamente eles serão melhor aproveitados, e portanto, capazes de integrar definitivamente o uso das mídias na prática pedagógica.


É nesse sentido, que proponho uma formação específica aos professores antes de iniciar qualquer projeto que faça uso de tais recursos.
Uma boa notícia é que parece que nossos governantes e gestores estão chegando a essa conclusão também. Prova disso, é que as escolas estaduais de São Paulo irão receber um kit denominado "Multimídia Sala do Professor". É claro que esse kit deveria ter chegado às escolas antes dos computadores dos alunos. Para assim, os professores terem oportunidade de entrar em contato com os novos recursos, e se sentirem seguros o bastante para desenvolver projetos envolvendo o uso de diferentes mídias.

Acredito que a gestão de tecnologias só terá sucesso se nesse contato professor-tecnologia for valorizada a comunicação e a construção do conhecimento aliadas a novas formas de interação e aprendizagem. Portanto, não vai ser um computador instalado na sala dos professores que irá resolver o problema. Os professores vão ter que arriscar um pouco mais nesse relacionam
ento. Diria até avançar o sinal (por que não?). Tenho certeza que ao final disso tudo, muitos casamentos acontecerão!

E finalmente, poderemos dizer que professor e computador "foram felizes para sempre..."



5.8.07

Prêmio Blog com Tomates


Receber um prêmio é sempre muito bom. E quando esse prêmio se refere a um trabalho que você adora fazer, é melhor ainda. O Blog Educar para Transformar recebeu o prêmio Blog com Tomates . Esse prêmio foi criado com o propósito de revelar pessoas que lutam pelos direitos fundamentais do ser humano. A expressão "com tomates" em Portugal (onde foi criado o prêmio) quer dizer "com testículos", ou seja, "com coragem". Portanto o prêmio é reservado àqueles que tenham coragem de lutar pelos direitos humanos em qualquer área.

Agradeço ao professor
Luis Carlos Dhein pela indicação e pelas lindas palavras.

E como os blogueiros premiados têm a (difícil!) missão de indicar outros 5 blogs, aí vão as minhas indicações:

1) O Último dos Moicanos
Por ser um espaço de desabafo coletivo!

2) Arte, Educação, Comunicação e Sociedade
Por discutir temas polêmicos e atuais!

3) Bloco de Notas
Por socializar descobertas no uso das tecnologias digitais na Educação!

4) Plenário Virtual
Por discutir educação e tecnologia com profundidade!

5) A Arte de Ensinar
Por considerar o ensino uma arte!

13.7.07

Seminário Os Caminhos da Infância


Em comemoração aos 17 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente o SESC-SP em parceria com a Aliança pela Infância realizou nos dias 11 e 12 de julho o Seminário "Os Caminhos da Infância". Foram dois dias de intensas discussões a respeito da problemática atual e principalmente a respeito das perspectivas que se colocam em relação ao futuro de nossas crianças. Estiveram presentes palestrantes e especialistas, nacionais e estrangeiros, além é claro de um público enorme de educadores, gestores, médicos e outros ligados ao universo infantil. Confira abaixo um pouco do que foi discutido nesses dois dias:
Conferência: O FUTURO DA CRIANÇA ( por Christopher Clouder- Inglaterra- co-fundador da Aliança pela Infância, escritor e membro da Sociedade Real de Artes)

  • Que tipo de mundo queremos para nossas crianças?
  • Não bastam palavras bonitas temos que de fato cuidar da infância de nossas crianças;
  • As crianças de hoje estão mais expostas à pressão e sofrem muito com o estresse;
  • Crianças versus tecnologia: há um super desenvolvimento da capacidade visual, por outro lado a capacidade de socialização é significativamente diminuída;
  • Precisamos ensinar as crianças a brincar pois criança precisa de recreação;
  • A escola preocupa-se muito em aumentar os espaços controlados em detrimento dos espaços para recreação (que não são tão fáceis de se controlar);
  • É necessário desenvolver na criança 4 competências:
  1. Competência Social
  2. Capacidade de solucionar problemas
  3. Autonomia
  4. Sentido de propósito
  • Precisamos descobrir a pessoa desconhecida que há dentro da criança e possibilitar que ela fale de si mesma;
  • Por em prática o 4 Pilares da Educação proposto por Jacques Delors no famoso Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação no Século XXI:
  1. aprender a conhecer
  2. aprender a conviver junto
  3. aprender a fazer
  4. aprender a ser
  • Paulo Freire: traz uma visão muito verdadeira de educação, não há educação verdadeira quando se faz dela uma forma de opressão.
  • Recado para os professores: "o professor deve respeitar a sua saúde física e mental, encontrar a alegria de ser professor e acima de tudo experimentar o sentimento de inteireza."
Painel: INFÂNCIA E EDUCAÇÃO

Claudia Davis (Psicóloga e Doutora em Psicologia Escolar)
  • Brasil tem 184 milhões de habitantes, destes 55 milhões têm entre 0 a 14 anos;
  • Taxa de analfabetismo atinge 15% dos brasileiros;
  • 34% vive abaixo da linha de pobreza;
  • 97% freqüenta o ensino fundamental;
  • 82% completa o ensino fundamental em média em 10 anos;
  • Desafio da Educação Infantil: aumentar a quantidade de creches, integrar pedagogicamente as creches às pré-escolas, estabelecer parcerias com as Ongs;
  • No ensino fundamental possibilitar 3 dimensões: significado da escola, relação com a escola e relação com o professor.
  • Progressão Continuada: "tem que sempre avaliar, foi uma idéia boa, mas implementada de forma errada."
Cleuza Repulho (Presidente Nacional da Undime)
  • Conceito de infância mudou nas últimas décadas: passou-se do cuidar para o educar;
  • A história da construção da educação infantil no Brasil já percorreu muitos caminhos e precisamos retomar esta história para prosseguir alcançando resultados significativos;
  • A qualidade na Educação Infantil está ligada ao apoio e recursos oferecidos pelo poder público.
Elvira de Souza Lima (Antropóloga e Psicóloga, pesquisadora associada à Universidade de Salamanca, na Espanha)
  • Precisamos entender que a escola é um contexto de cultura e perceber a educação como dimensão humana;
  • Contribuição de Vygotsky: mediação semiótica; desenvolvimento cultural e apropriação dos meios e das formas de comunicação.
  • Progressão Continuada: "em vez de nos preocupar com a reprovação vamos nos preocupar em ensinar as crianças pois todas são capazes de aprender."
Colóquio: MÍDIA, CRIANÇA E NOVAS TECNOLOGIAS

Beth Carmona (jornalista, diretora-presidente da Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto/ACERP):
  • No Brasil abrimos mão da mídia televisiva pois não a utilizamos em todo o seu potencial;
  • Emissoras públicas versus Emissoras Privadas: uma concorrência quase desleal pois as emissoras privadas contam com patrocínios milionários.
Ana Lúcia Villela ( Presidente do Instituto ALANA):
  • A mídia, principalmente a televisiva, transforma as crianças em consumidores;
  • Preocupação: que tipo de consumidor está sendo formado? Crítico? Consciente?
  • O Código de Defesa do Consumidor, no tocante ao marketing infantil, determina, no seu artigo 37 , que a publicidade não pode se aproveitar da deficiência de julgamento e experiência da criança, sob pena de ser considerada abusiva e, portanto, ilegal.
  • O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê, no seu artigo 76 , as normas a serem seguidas pelas emissoras de rádio e televisão no tocante à programação, a fim de que dêem preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas que respeitem os valores éticos e sociais da pessoa e da família.
Carlos Seabra (Editor e produtor de conteúdos multimídia e internet):
  • Quem domina a tecnologia? são os mesmos de sempre: a classe dominante, aqueles que ditam as regras.
  • Precisamos de uma tecnologia voltada para a produção democrática do conteúdo;
  • Os impactos sociais da informática são capazes de levar a uma transformação total da sociedade;
  • a educação não apenas tem que se adaptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assumir um papel de ponta nesse processo;
  • Obter ou desenvolver tecnologia envolve conhecimento, já adquirir artefatos tecnológicos é apenas a capacidade de aquisição.
Para ler mais:

Aliança pela Infância
Instituto ALANA
Artigo de Carlos Seabra


continua...

8.7.07

TV de Labpixies





A TV de Labpixies é um dispositivo que permite ao usuário não só assistir mas também selecionar a sua programação favorita. É simples e divertido!

A TV de Labpixies usa os sinais de vídeo gerados pelas várias estações de TV. Já vem predefinida com diversos exemplos de estações de TV. Mas você pode também escolher a sua própria programação.

Para começar a usar a sua TV on line, siga os seguintes passos:

  • Para ligar e desligar clique no penúltimo botão ( Power on/off)
  • Para selecionar os canais clique nos cinco primeiros botões da TV ( observe na figura da TV que cada botão corresponde a um canal )
  • O último botão da direita (Settings) é usado para escolher a sua programação
Para montar a sua programação siga estes passos:
  1. clique no botão Settings.
  2. Na janela azul que se abrir clique em Change Stations
  3. Vai abrir uma nova página. Escolha o país clicando em Select Contry
  4. Agora é só você escolher as cinco estações de sua preferência
  5. Feche esta página e retorne à janela azul
  6. Marque a opção Remember play mode on refresh?
  7. Finalmente, clique em Save
  8. Pronto! Agora é só assistir a sua programação!



1.7.07

De quem é a culpa?


O IDEB ( Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) é o mais novo indicador de desenvolvimento criado pelo Ministério da Educação. Ele tem por objetivo nortear as políticas de melhorias na qualidade das escolas públicas do país. Ele considera o desempenho dos alunos nos exames Prova Brasil e SAEB , assim como as taxas de aprovação. Unindo estes três indicadores temos o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB).

Os dados recentes do IDEB apontam que no nosso país temos hoje, um índice de 3,8 e que a meta é atingir 6 até 2021.

O IDEB foi utilizado também para identificar os mil municípios com os piores índices de qualidade de ensino. Estes municípios receberão apoio do MEC. Poderão contar também com uma verba extra do governo federal.


Penso que quando um indicador criado pelo próprio governo mostra que a situação do ensino básico não está nada bem, muita coisa deve ser feita. E isso não inclui tão somente apoio pedagógico, técnico ou financeiro.
Vai muito além...
Nenhum programa que almeje mudanças profundas na educação irá ter êxito se não estiver vinculado a um outro muito maior, que vise uma transformação social profunda.
Nessa perspectiva, não é na escola apenas que se deve travar a luta contra o fracasso escolar. Não se trata de uma solução educacional, mas sim de transformações da estrutura social como um todo.

Quando se divulga índices como estes e se diz que as escolas com os piores índices receberão ajuda, a meu ver o objetivo é apenas simular soluções e eximir responsabilidades.

Assim, enquanto nossos governantes trabalharem com a hipótese de que o problema da educação no nosso país é apenas um problema técnico, pedagógico ou financeiro, não teremos soluções significativas para os problemas atuais.

Nesse sentido, só a eliminação das discriminações e das desigualdades sociais e econômicas poderiam garantir o sucesso de algum programa ou projeto que vise a melhoria da qualidade do ensino.

Até 2021?

Considerando que mais de 99% das escolas ficaram abaixo da média 6 no índice do IDEB penso que a situação está pior do que pensávamos. Mas divulgar o resultado chamando a atenção para as escolas com os piores índices, reforça a idéia de que o problema da educação no país é um problema exclusivo da escola e seus membros e deixa a cargo de cada uma a busca por soluções. Ora, isso não passa de mistificação, e, portanto,uma tentativa de passar a responsabilidade do fracasso escolar para os alunos e seus professores.
Sendo assim, não é difícil de prever que em 2021 estaremos discutindo a respeito dos mesmos problemas... ainda sem solução.


Para saber como foi o desempenho da sua escola acesse o site do
IDEB







3.6.07

Lembre-se que você é adulto e seus alunos ainda são crianças. Mas também lembre-se que tem uma criança interior que precisa da sua atenção e cuidado.

Aja com sinceridade, justiça e integridade. Com isso, ensinará tais valores sem esforço.


Inúmeras vezes durante o dia, você depara com a escolha: valorizar ou humilhar, afirmar ou desumanizar. Faça sua escolha com consciência.

Todo dia você tem a oportunidade de oferecer aos alunos o mundo, experiências e um conhecimento que transforma a vida. Aprecie as possibilidades.

A empolgação é contagiante.


Irradie entusiasmo por seus alunos, pelo ensino, pela vida - e por atrair alunos à educação e à vida.

Seus alunos -e você - serão muito mais valiosos.

Vale dos Elfos 1745

22.4.07

Rádios comunitárias

Desde o ano passado as rádios livres e comunitárias têm sido alvo de repressão por parte do governo federal. O que está por trás disso é a perpetuação de um sistema essencialmente unilateral que permite acumular, nas mãos de poucos o poder e o direito da comunicação. Isso implica em manter as maiorias sociais apenas como receptoras de mensagens. Limita a capacidade da maioria social de pensar, se organizar e reivindicar. Aumenta consideravelmente o poder político e econômico dos grupos minoritários.Portanto, tal repressão é a negação da autonomia de todo um segmento social. Não se trata apenas de se indignar, mas acima de tudo, de não deixar calar o nosso direito à livre expressão e à livre comunicação.

No vídeo abaixo podemos perceber o quanto essa repressão causa indignação, mas percebemos também o quanto ela une as pessoas na luta por um ideal comum.

Fechamento da Rádio Heliópolis

O professor está doente

Reproduzo abaixo trechos da matéria publicada na Revista Educação (edição 119):Sob pressão



O professor está doente. Excesso de trabalho, indisciplina em sala de aula, salário baixo, pressão da direção, violência, demandas de pais de alunos, bombardeio de informações, desgaste físico e, principalmente, a falta de reconhecimento de sua atividade são algumas das causas de estresse, ansiedade e depressão que vêm acometendo os docentes brasileiros.

Profissionais de saúde e de educação dão cada vez mais atenção a fatores que afetam a saúde psicológica do professor. Ainda que pouco seja feito em termos de políticas públicas e educacionais para prevenção, acompanhamento e tratamento de casos genericamente classificados como de estresse, pesquisas começam a identificar a origem do mal e a apontar caminhos para mudanças.


Partindo da hipótese de que as condições de trabalho - excesso de tarefas e ruídos, pressão por requalificação profissional, falta de apoio institucional e de docentes em número necessário, entre outras - geram um sobreesforço na realização de suas tarefas, o estudo conclui que os resultados aferidos nas diversas cidades são convergentes e que os professores estão mais sujeitos que outros grupos a terem transtornos psíquicos de intensidade variada.


Um dos problemas mais comuns na atividade de educador é a síndrome de burnout. Suas causas estão na ocupação profissional, principalmente entre trabalhadores que lidam diretamente com pessoas e demandas variadas. É comum entre médicos, enfermeiros, policiais e, é claro, professores.

Vista como epidemia no meio educacional, essa síndrome não é exclusividade brasileira. Estudos na década de 1980 já apontavam altíssima incidência do problema entre os docentes norte-americanos. Entretanto, por estar sendo estudada há relativamente pouco tempo, ainda é difícil avaliar o desenvolvimento do burnout nas diferentes atuações profissionais. De qualquer maneira, as mudanças sociais das últimas décadas - que, para ficarmos no caso brasileiro, alteraram a cultura e os interesses do alunado, aumentaram a violência nos centros urbanos e diversificaram e intensificaram o acesso à informação - entraram na escola e tornaram-se fatores motivadores de estresse entre os professores.

A Universidade de Brasília (UnB) realizou, a partir de um acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), uma grande pesquisa nacional no final da década passada sobre o burnout com 52 mil trabalhadores em 1.440 escolas. Esse trabalho foi publicado no livro Educação: Carinho e Trabalho (Editora Vozes, 434 páginas). Os resultados mostraram que 48% dos entrevistados apresentavam algum sintoma da síndrome.

Para a pesquisadora Iône Vasques-Menezes, da UnB, desvalorização da carreira docente concorre para o aumento dos problemas psíquicos dos professores
A coordenadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da UnB e uma das pesquisadoras envolvidas no estudo, Iône Vasques-Menezes, destaca no meio desses números preocupantes que, de certa forma, o profissional está mais sujeito ao burnout, pois a situação da sociedade é outra. Ela lembra que até o início da década de 1960 o professor era valorizado.

Uma pesquisa mais recente, de 2003, feita pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) apresentou resultados semelhantes: 46% dos professores já tiveram diagnosticado algum tipo de estresse - entre as mulheres esse número chega a 51%.



A deterioração

Celso dos Santos Filho é médico residente do setor de psiquiatria do Hospital do Servidor, em São Paulo. Ele diz que atende a um número considerável de professores que buscam ajuda psiquiátrica com os mais diversos transtornos. "Há uma desvalorização gradual do papel do professor. Ele se sente cada vez menos valorizado, o que afeta a prática profissional e a auto-estima", conta. Tais perturbações deságuam em "dificuldade para ir ao trabalho, insônia, choro fácil". O médico nota que as reclamações mais comuns desse sentimento de depreciação da atividade apontam para a falta de autoridade sobre os alunos e para a ausência de apoio institucional e das famílias dos alunos.

Existem dados que balizam a fala do psiquiatra: a Unesco fez, em 2002, uma grande pesquisa sobre o perfil do professor brasileiro. Em uma das questões sobre a percepção que tinham do próprio trabalho, 54,8% afirmaram ser um problema manter a disciplina em sala de aula; 51,9% mencionaram as características sociais dos alunos; e 44,8%, a relação com os pais. Outros pontos críticos estão relacionados com o volume de trabalho e a falta de tempo para preparar aulas e corrigir avaliações. De todo modo, as questões que envolvem relações humanas, que são a essência da educação, demonstram ser obstáculos difíceis para os professores.

A síndrome do esgotamento profissional,conhecida como síndrome de burnout,foi batizada nos anos 70. O nome vem da expressão em inglês to burn out, ou seja, queimar completamente, consumir-se.

"A gente deixa de fazer o trabalho para ficar chamando a atenção de aluno para tirar o pé da cadeira e para fazer silêncio. Isso os pais deveriam ensinar", revolta-se uma professora da rede pública paulista. "Nas reuniões, os pais dos alunos que não têm problemas aparecem; os que têm, raramente vão." A psicóloga e professora da PUC-Campinas, Marilda Lipp, concorda com a professora: "As crianças estão mal-educadas. Mas ao mesmo tempo em que os pais desvalorizam os professores, passam a eles a responsabilidade de educar os filhos".


De acordo com uma pesquisa orientada pelo psicólogo e professor da UERJ, Francisco Nunes Sobrinho, um fator determinante do burnout é a idade do professor. Pelos resultados, educadores mais jovens fazem uso exagerado de "controle aversivo". "Eles, por exemplo, gritam mais com o aluno para tentar controlar a disciplina. Se o professor ameaça demais, ele também pode criar um clima de estresse", explica.

Problema abrangente

A deterioração da atividade docente não acontece apenas no ensino público, o privado também sofre de mal semelhante. "A relação entre professor e aluno se transformou em relação professor-cliente", condena Rita Fraga, diretora do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP). Apesar de trabalhar com profissionais da rede particular do Estado, ou seja, que supostamente figuram entre os mais bem remunerados do país e com uma boa infra-estrutura de ensino disponível, o sindicato nota um aumento do estresse no seu público. Rita avalia que muitos professores são pressionados pelos interesses mercadológicos da escola e, assim, muitas vezes não têm suporte da instituição em situações de enfrentamento com os alunos. "Com medo de perder o emprego, ele se sujeita a esse tipo de situação."

A psiquiatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Alexandrina Meleiro, demonstra

Medo de perder o emprego gera submissão de docentes, alerta Rita Fraga, do Sinpro-SP
que esse problema de instituições privadas existe nos casos que atende, principalmente de professores do ensino superior: "Em algumas (instituições), os alunos fazem um motim contra o professor e a escola prefere demitir o profissional a ficar do lado dele", relata.

Entretanto, ela identifica que a maior quantidade de casos está no ensino fundamental. "São professores com problemas somáticos - depressão, ansiedade, às vezes síndrome do pânico - e, em alguns casos, se houve um assalto na escola, por exemplo, depressão pós-trauma", diagnostica. De acordo com Alexandrina, "entre 30% e 40% acabam desistindo da profissão, o que caracteriza que o problema é decorrente da ocupação".

O tratamento, segundo a psiquiatra, varia muito. "Dependendo do grau de desgaste, a pessoa pode passar somente por psicoterapia, ser medicada temporariamente com ansiolítico ou antidepressivo e, às vezes, tem de ser deslocada para uma função burocrática ou passar a trabalhar com outros tipos de alunos."

48% das pessoas que trabalham em escolas apresentam algum sintoma de estresse, segundo pesquisa realizada em âmbito nacional pela Universidade de Brasília

Uma preocupação de Alexandrina é com a violência. Chaga dos grandes centros urbanos do país, a violência é apontada por muitos pesquisadores como um fator estressor importante que atinge comumente os professores que lecionam em escolas situadas em regiões de risco, com altos índices de criminalidade e, em alguns casos, presença do tráfico de drogas. Ainda que a violência possa atingir direta ou indiretamente qualquer um, "a gente tem de dar um enfoque maior para a escola, pois ela lida com a criança e com o adolescente que serão cidadãos, e é nesse meio que a violência é cultuada", alerta a psiquiatra.

Origens múltiplas

"O burnout é uma síndrome multideterminada, ou seja, uma combinação de fatores facilita o surgimento dela", explana Iône Vasques-Menezes, da UnB. Dessa maneira, ainda que as dificuldades com disciplina, desvalorização da atividade e exposição à violência despontem como seus principais causadores, não se pode desprezar outros motivadores das doenças psicossomáticas dos professores.

Para a psicóloga Marilda Lipp, ao mesmo tempo em que desvalorizam os professores, pais confiam a eles a educação dos filhos
Marilda Lipp, da PUC-Campinas, cita o tecnoestresse, que seria o contato cada vez mais freqüente com tecnologias em sua atividade escolar, o que demanda conhecimento de processos e, em muitos casos, um aumento da carga de trabalho para fazer relatórios via rede, por exemplo.






Por onde começar?

Como as causas dos problemas psicológicos dos professores têm origens distintas, os caminhos para sua solução também são variados. A presidente da CNTE, Juçara Vieira, lembra do que é óbvio para começar a valorizar a profissão, mas que costuma ser esquecido com assustadora regularidade: o salário. "O importante é se ter um piso salarial que permita, por exemplo, trabalhar para apenas uma escola", comenta.

Ela cita também a necessidade de ter uma escola democrática que fortaleça as relações interpessoais e de aplicar políticas públicas de formação permanente. Nunes Sobrinho corrobora a tese de que é preciso preparar os professores. "A mudança do cenário passa pela formação das pessoas, por começar a incorporar no currículo algumas questões de comportamento." O psicólogo dá um exemplo que presenciou: "Trabalhei em uma escola de periferia em que a criança levava um bilhete chamando o pai para uma reunião, e ela era espancada antes mesmo de o pai saber do que se tratava. Isso demonstra que a professora só trabalha com o lado negativo. O pai só é chamado para ouvir crítica. O professor ainda não aprendeu que tem de chamar o pai também para fazer elogios. Quando começaram a chamar alguns pais para elogios, as crianças queriam que os seus pais fossem chamados também".

Para Iône, há na atividade a sensação de que se dá muito, mas não se recebe nada em troca, o que provoca insegurança e desânimo. Ela acredita que o professor precisa de afeto para transmitir conhecimento. "Se ele não gostar dos alunos, não conseguirá transmitir nada." A psicóloga da UnB acha difícil estabelecer uma única linha de atuação para diminuir o burnout. "Se é uma síndrome de trabalho, teria de mudar a organização do trabalho dependendo das condições em que ocorre naquela comunidade". Ela esclarece que em uma cidade pequena, ainda que a infra-estrutura da escola seja inferior quando comparada à de um grande centro desenvolvido, a proximidade com a sociedade local acaba compensando e o professor fica menos exposto. "É mais fácil identificar fatores que protejam contra o burnout do que os causadores - controle sobre o trabalho, suporte social, ligação da escola com a comunidade, reconhecimento social."

55% dos professores brasileiros ouvidos em pesquisa da Unesco afirmaram ter problemas para manter a disciplina em sala de aula

Com uma abordagem menos voltada para a idéia de síndrome trabalhista, a professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), Sandra de Almeida, avisa que o professor se apresenta com uma expressão de grande sofrimento psíquico e um mal-estar visível. Ela baseia suas afirmações em pesquisas realizadas com docentes na complementação pedagógica para professores do magistério no Distrito Federal, dos quais "cerca de 20% têm licenças médicas motivadas por estresse".

Isso tem como conseqüência o absenteísmo, ou seja, os professores faltam muito. "Eles fazem pedidos de transferência para secretaria, fazem de tudo para não estarem presentes em sala de aula", relata. "Quando nada mais funciona, utilizam o recurso da licença médica."

Sobre as críticas de diversas secretarias de educação de que muitos professores querem licenças simplesmente para matar trabalho, a psicóloga retruca: "é claro que muito disso pode ser 'mais ou menos fingido', mas tem um valor psíquico para o sujeito. Por que ele se apresentaria como um sofredor? Podemos chegar à conclusão de que isso não se configura como depressão, mas pode ser um estresse".

Sandra destaca que o professor não é escutado no ambiente escolar. Na opinião dela, esse profissional convive muito tempo com os alunos e lida com demandas diversas e contraditórias e não tem com quem conversar. "Assim, o médico é a figura que pode ajudar e que, em último caso, pode afastá-lo da sala de aula, e isso pode aumentar ainda mais a sua angústia."

Vale a pena tentar entender o que aflige e adoece o professor brasileiro, esse indivíduo difícil de ser explicado. Afinal, segundo a pesquisa realizada pela UnB, esse trabalhador, com todos os problemas que enfrenta, ainda pertence a uma categoria que apresenta índices de satisfação profissional próximos de 90%.

(Fabiano Curi)




Leia a matéria na íntegra


1.4.07

Este texto de Paulo Freire nos mostra com bastante simplicidade que "não há saber maior ou saber menor", mas sim, saberes diferentes. Vamos pois, valorizar todos os saberes que nossos alunos trazem!








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  • 31.3.07

    Escola Eficaz

    COMO APERFEIÇOAR AS ESCOLAS PARA QUE MAIS ALUNOS
    APRENDAM MAIS

    Boudewijn A. M. van Velzen

    Nas últimas décadas tem-se debatido, em países do mundo

    inteiro, duas grandes questões:

    • Quais são as características das escolas eficazes?

    • Como aperfeiçoar as escolas menos eficazes?

    A primeira questão é importante porque precisamos saber o que

    devemos implementar nas escolas, se quisermos fazer com que

    mais alunos aprendam mais.

    Mas, respondida esta questão, a segunda torna-se vital, pois

    implica em identificar as medidas a serem tomadas, dentro das

    escolas e fora delas, para que sua prática passe realmente a

    promover o sucesso de todos.

    Refletir sobre os dois temas, portanto, é essencial para todos os

    envolvidos no esforço de aperfeiçoar a qualidade da educação.

    Neste artigo, apresentaremos uma descrição concisa das

    respostas que os pesquisadores vêm oferecendo a essas questões

    cruciais.

    1. CARACTERÍSTICAS DAS ESCOLAS EFICAZES

    Num estudo recente, REYNOLDS et al. (1996, p. 36-56)

    apresentam uma síntese das características de escolas eficazes,

    resultante da análise de um número considerável de pesquisas

    sobre eficiência das escolas.

    1. 1. ALUNOS MOTIVADOS

    Escolas eficazes são aquelas que conseguem motivar (quase) a

    totalidade dos seus alunos a aprender tanto habilidades básicas

    quanto metacognitivas.

    É importante despertar no aluno a vontade de dedicar o maior

    tempo possível a atividades de aprendizagem, fazendo uso

    intensivo das oportunidades de ensino que lhe são oferecidas. Isto

    evidencia que, no final das contas, o aluno é o fator determinante

    no processo. Um currículo sobrecarregado torna impossível a

    aprendizagem. Além disso, é necessário fornecer aos estudantes

    oportunidades concretas de aprenderem: materiais de estudo e

    livros atraentes e convidativos, por exemplo. O que nos leva

    automaticamente aos responsáveis pela oferta destas

    oportunidades de aprendizagem.

    1.2. PROFESSORES COMPETENTES

    Os professores, em sala de aula, são responsáveis pela

    implementação de elementos importantes elementos do

    currículo, tais como:

    • objetivos e conteúdo das lições claros e explícitos;

    • estrutura e transparência do conteúdo;

    •emprego de planos de aula;

    • avaliação sistemática dos resultados do aluno, oferecendo o

    feedback positivo e a instrução adicional.

    Além disso, eles podem decidir como agrupar os alunos na

    classe. É preciso lembrar que a eficácia destes grupos de trabalho

    depende, em muito, dos materiais diversificados que o professor

    utiliza, da maneira como é feita a avaliação, do modo como é

    oferecido o feedback e da forma como as informações

    suplementares são apresentadas.

    O currículo e as formas de agrupamento dos alunos, em si

    mesmos, representam apenas condições para o sucesso. O fator

    mais importante é o próprio professor, o ser humano que está à

    frente da classe. Ele pode exercer grande influência.

    Esta possibilidade, é claro, depende do sistema de ensino, do

    país e da escola em questão.

    Nem todos os currículos nacionais ou estaduais possuem

    objetivos claros, estruturam os conteúdos de forma transparente,

    prevêem emprego de planos de aula e avaliação dos resultados.

    Nem todas as escolas realmente envolvem desde o início os seus

    professores na realização de mudanças educacionais concretas. E,

    em muitos casos, o grande número de alunos por sala de aula

    limita as variações nas formas de agrupamento.

    No entanto, só o professor pode proporcionar:

    • uma organização calma e ordenada da classe;

    • uma forma inteligente de acoplar sistematicamente o trabalho

    da classe às lições de casa;

    O professor competente é essencial a qualquer proposta de

    educação em que se pretenda que mais alunos aprendam mais.

    Porém, todas as pesquisas demonstram que, sozinho, o docente

    pouco irá avançar. Ele precisa da escola.

    1.3. ESCOLAS COM OS NECESSÁRIOS REQUISITOS EDUCACIONAIS
    E ORGANIZACIONAIS

    Na escola são criadas as condições didáticas e organizacionais que

    permitem um bom desempenho do professor em sala de aula, com seus

    alunos. São condições educacionais importantes:

    • consenso entre a direção da escola e os membros do corpo

    docente quanto a métodos didáticos, material de ensino,

    formas de agrupamento, atitudes dos professores;

    • um sistema de avaliação dos resultados do aluno que

    facilite o seu acompanhamento durante todo o curso,

    evitando problemas ou corrigindo-os numa fase inicial.

    São condições organizacionais importantes:

    • cultura voltada à melhoria da eficácia do ensino, tendo como

    centro a aprendizagem do aluno e que se manifesta, entre

    outros aspectos, pela presença de coordenação/supervisão

    (liderança) e profissionalismo;

    • planejamento sistemático e bem concebido das atividades de

    aprendizagem, no qual o mínimo de tempo possível seja

    desperdiçado -por exemplo, combatendo as faltas de alunos e

    professores e estruturando melhor as aulas;

    • ênfase à construção de um ambiente calmo e ordenado na escola;

    • consenso entre a direção e os professores no tocante à
    missão institucional da escola, ou seja, o que ela pretende fazer, o por quê, como.

    Escolas eficazes dão muita importância à coerência entre os

    vários participantes da equipe escolar. Todo o pessoal (tanto a

    direção como os docentes) deve estar disposto a assumir a

    responsabilidade pela coerência da escola.

    Isto significa que a política de uma unidade escolar não pode

    ser modificada muito freqüentemente. Os professores e a

    direção precisam de tempo para se familiarizar com eventuais

    mudanças. Esta realidade colide às vezes com as idéias e os

    interesses da sociedade ou das autoridades. Evidencia-se, por

    outro lado, a importância do papel desempenhado pelos

    diretores das escolas no processo de inovação educacional.

    1.4. UM CONTEXTO ESTIMULADOR

    Uma escola (e com certeza uma escola pública) nunca está

    isolada no bairro, cidade ou região. A escola tem laços com as

    Diretorias de Ensino, com as Secretarias Estadual e Municipal

    de Educação, com o Ministério da Educação, com os Conselhos

    de Educação, com as autoridades, com outras escolas, com

    empresas e instituições. Chamamos a isto o contexto da escola, o qual pode

    contribuir para sua eficácia mediante:

    • uma política (nacional, estadual, municipal) visando

    especificamente aumentar a eficácia das escolas;

    • um método sistemático de avaliar e de testar a qualidade do ensino;

    • educação continuada, apoio aos docentes e à direção, visando à

    eficácia;

    • o financiamento diferenciado das escolas, com base nos

    resultados dos alunos (levando em conta os antecedentes e o

    meio social da clientela).

    Além disso, é o contexto que deve oferecer parâmetros para que

    se possa lidar com o tempo necessário ao ensino. E, por fim, o

    contexto pode promover a eficácia, proporcionando um bom

    currículo nacional/estadual e colocando à disposição os

    recursos a ele associados.

    Resumindo, podemos afirmar que os professores dispõem de

    muitas possibilidades para estimular os alunos a

    aprenderem mais, desde que a escola crie, de forma

    consistente, as condições didáticas e organizacionais necessárias.


    2. TORNANDO AS ESCOLAS MAIS EFICAZES

    Todo mundo quer que as escolas sejam eficazes. É bastante triste

    constatar que os alunos, depois de anos de escolaridade, não

    aprenderam nada, ou aprenderam coisas erradas. Em sua maioria, os

    docentes ficam muito frustrados quando, de repente, o aluno abandona

    a escola. Para o professor, cada desistência é uma decepção.

    Não obstante, a prática mostra que não é nada fácil concretizar

    uma educação eficaz em um grande número de escolas.

    Aperfeiçoar escolas é um processo complexo, que envolve muitos

    agentes em diferentes níveis: sala de aula, escola, Diretoria Regional,

    órgãos centrais da Secretaria de Educação, prefeituras, Conselhos.

    Estes agentes, em todos os níveis, deveriam
    colaborar uns com os outros.

    Reformas em grande escala, nas quais as escolas e os
    professores são considerados exclusivamente como agentes
    executores de uma política com a qual não se identificam, têm resultado em
    fracasso.

    Leia o texto na íntegra

    11.2.07

    No tempo em que os bichos falavam*



    Houve um tempo em que os bichos falavam, e eles falavam tanto que Esopo resolveu recolher e contar as histórias deles para todo mundo.

    Esopo era escravo de um rei da Grécia, e divertia-se inventando uma moral para as histórias que ouvia dos animais.

    Na verdade, nem todos os moradores do país eram capazes de entender a linguagem dos animais, mas Esopo era. Sobretudo dos pequeninos, que falavam muito baixinho, como por exemplo os ratinhos que moravam num buraco da parede da cozinha do palácio.

    Um dia, quando limpava o chão da cozinha, Esopo ouviu uns ruídos que vinham de dentro do buraquinho. Os ratinhos estavam muito agitados e preocupados pois, o rei havia colocado um gato grande e forte para tomar conta dos petiscos reais e o tal gato não era de brincar em serviço, já tinha devorado vários ratos.

    Esopo apurou os ouvidos e pôde ouvir tudo o que os ratinhos diziam:

    Um deles, muito espevitado, parecia ser o líder e, de cima de uma caixa de fósforos, discursava:

    — Meus amigos, assim não é mais possível, não temos mais paz e tudo porque o rei resolveu trazer aquela fera para cá. Precisamos fazer alguma coisa, e logo, porque senão esse gato vai acabar com a nossa raça!

    Era uma assembléia de ratos e todos estavam muito empenhados em solucionar o problema que os afligia: um gato, grande e forte, que o rei havia mandado colocar na cozinha.

    Já tinham perdido vários amigos nos dentes afiados da fera: o Provolone, o Roquefort, o Camembert e o pobre Tatá, o mais amado de todos.

    Planejaram, planejaram e não conseguiram chegar a nenhuma conclusão que agradasse a todos. Precisavam de estratégias eficazes e seguras.

    Uns achavam que deveriam matar o tal gato; outros diziam que era impossível: "Como matar uma fera daquelas?"

    Horácio estava quase convencido de que a sina de seu povo era morrer entre os dentes do gato. Com lágrimas nos olhos, já ia descendo da caixa de fósforos quando Frederico, um ratinho muito tímido que nunca falava, resolveu dar sua opinião:

    — Como vocês sabem, eu não gosto muito de falar, por isso serei rápido, mas antes vocês vão responder a uma pergunta: Por que esse gato é tão perigoso para nós, se somos tão ágeis e espertos?

    E Horácio respondeu:

    — Ora, Frederico, esse gato é silencioso, não faz nenhum barulho. Como é que vamos saber quando ele se aproxima?

    — Exatamente como eu pensei. Me perdoem a modéstia, mas acho que a idéia que tive é a melhor de todas as que ouvi aqui .Vejam só, é simples: Vamos arrumar um guizo, pode ser até aquele que pegamos da roupa do bobo da corte. Lembram? Aquele que achamos bonitinho e que faz um barulho enorme.

    Os ratos não estavam entendendo nada, para que serviria um guizo?

    Frederico tratou de explicar:

    — A gente pega o guizo e coloca no pescoço do gato. Quando ele se aproximar, vamos ouvir o barulho e fugir. Não é simples?

    Todos adoraram a idéia. Era só colocar o guizo que todos ouviriam o gato se aproximar.

    Todos os ratos foram abraçar Frederico e estavam na maior euforia quando, de repente, um ratinho que não parava de roer um apetitoso pedaço de queijo, resolveu perguntar:

    — Mas quem é que vai colocar o guizo no pescoço do gato?

    Todos saíram cabisbaixos. Como não haviam pensado naquilo antes?

    Era o fim da euforia dos ratinhos. Para Esopo, a moral da história era a seguinte: "Não adianta ter boas idéias se não temos quem as coloque em prática". Ou ainda: "Inventar é uma coisa, colocar em prática é outra".

    _______________________________________________
    Uma releitura de Esopo feita por Georgina Martins
    e ilustrada por Evandro Luiz


    Este texto propicia uma ótima reflexão para os dias de planejamento. Ele mostra que bons planos de aula só serão eficientes se por trás deles houver muita discussão, afinal, planejar é um construir e reconstruir coletivo, concordam?


    *Texto retirado da Revista Nova Escola edição 148 ( dezembro/2001)