29.9.07

2º Simpósio de Educação Paulus

"Um olhar sobre o ensinar e o aprender" foi o tema do 2º Simpósio de Educação que aconteceu no dia 27/09/07 na FAPCOM ( Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação). O evento foi promovido pela Editora e Faculdade Paulus.

Confira abaixo os principais momentos do Simpósio:



Palestra "Novas maneiras de ensinar, novas formas de aprender" (Celso Antunes):

O professor no nosso país está com uma imagem desgastada e desvalorizada. Qualquer outro profissional se sente capaz de avaliar e até discutir sobre a função do professor. Mas o contrário não acontece; o professor tem consciência da sua limitação. Em outros países podemos perceber que o professor é um profissional que ocupa lugar de destaque na sociedade. No Japão, por exemplo, o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor, pois segundo os japoneses, numa terra que não há professores não podem haver imperadores.

Mas por que no Brasil o professor não tem prestígio?
Segundo Celso Antunes, o professor para adquirir esse prestígio tem que acompanhar as mudanças que ocorrem num ritmo cada vez mais acelerado. Não podemos acreditar que ainda hoje nossa tarefa é apenas informar sobre os conhecimentos acumulados historicamente.
Hoje, a informação está em todo lugar e bem atualizada. Ou seja, a escola não é mais lugar privilegiado de informação. O papel do professor por esse motivo deve ser repensado.
Nesse sentido, há uma brutal diferença entre dar aula ontem e dar aula hoje.

Mas como mudar?

O autor apresenta cinco elementos que na sua opinião são fundamentais para mudar a educação brasileira e por conseqüência melhorar a imagem do professor:

1) A Aula: a aula deve ser o momento de usar a fala. Falar é uma ferramenta imprescindível para o aprender. Proibir o aluno de falar é impedir a sua aprendizagem. Porém, há duas falas diferentes no contexto escolar: a fala descontextualizada do aprender ( que não provoca o processo de aprendizagem) e a fala canalizada ( que organiza o aprender). Para chegar a uma fala canalizada com os alunos é necessário aprender novas formas de dar aula. Mesmo porque, professor não pode ser escravo de apenas um tipo de aula. Hoje, percebemos que muitos professores dão aulas expositivas nos 200 dias letivos. A aula pode ser expositiva, mas também pode ser através de projetos, seqüencias didáticas, roda da conversa, jogo de palavras, enfim, outras formas que possibilitem os alunos usarem a sua fala de forma organizada

2) O Conteúdo:
os conteúdos são os ensinamentos que são passados aos alunos. O conteúdo não pode ser metálico e vazio. Devemos perceber-los como ferramentas capazes de desenvolver competências. O aluno tem que aprender a argumentar, a pensar, a ter idéia. O mundo está acontecendo e os conteúdos estão a margem desses acontecimentos. Por isso mesmo os conteúdos devem ter "cheiro, gosto, cor e alma". Só assim poderemos formar gente e não apenas intelectuais.

3) O Professor
:
o professor deve ser o propositor, o interrogador, o instigador, aquele que ajuda a aprender. Assim, ele deve levar para a sala de aula alguns pontos de exclamação, mas principalmente, muitos pontos de interrogação. Os alunos devem ser induzidos a pensar, a encontrar argumentos. É como diz o ditado popular: em vez de dar o peixe, devemos ensinar a pescar.


4) A Linguagem
:
alguns professores acreditam que o texto é a única forma de ensinar algo ao aluno. Mas a escola é um espaço propício para o convívio de diferentes linguagens. A música, a mímica, a dramatização, a colagem, o slogan, a escultura são apenas alguns exemplos de linguagens que podem estar presentes no dia-a-dia da escola.


5) A Avaliação
: a proposta é olhar a avaliação como quem vê caminhos. É ter olhos para o amanhã, para o progresso. Avaliar apenas para dar uma nota não faz sentido algum.

O professor Celso Antunes finalizou a palestra com a seguinte frase: "quem na terra assumi novas formas de ensinar e aprender não precisa pedir licença no céu, pode ir entrando..."


Palestra "A escola que sempre sonhei" ( Rubem Alves)

Rubem Alves
diz sempre ter sonhado com uma escola ideal, mesmo sem saber ao certo da sua existência. Mas ela existe! E está em Portugal. É a Escola da Ponte.
Quando a viu pela primeira vez em 2000, tendo como guia um aluna de 9 anos, lembrou a frase de Fernando Pessoa para a mulher amada:"Quando te vi, amai-te já muito antes..."

Mas ele nos alerta: para entender a Escola da Ponte precisamos esquecer quase tudo o que sabemos. Primeiro é preciso esquecer aquilo que somos para sairmos da prisão do que somos hoje. É submeter ao esquecimento, desarticular o que sabemos. Só assim vamos conseguir ver coisas novas. Isso acontece porque precisamos nos livrar dos jeitos de ser que se sedimentaram a nós, e que nos levam a crer que as coisas devem ser do jeito que são.

Assim, a escola ideal de Rubem Alves seria como a escola que ele conheceu em Portugal:
  • uma escola sem classes separadas por série;
  • com salas de aula sem divisões, com mesinhas baixas, próprias para as crianças;
  • os alunos poderiam andar livremente pela sala;
  • os professores seriam orientadores;
  • pequenos grupos de alunos seriam formados a partir do interesse comum por um assunto.
Para Rubem Alves, precisamos de uma escola retrógrada. Pois retrógrado quer dizer "que vai para trás". Precisamos então de uma escola que vá para trás dos "programas" científica e abstratamente elaborados e impostos. "Uma escola que compreenda como os saberes são gerados e nascem. Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que o corpo faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido, mas o corpo da criança que vive, admira, se encanta, se espanta, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, se machuca, brinca."


Workshop "Inclusão de pessoas com deficiência na escola- um desafio a ser enfrentado" (Profª Dra Celina Camargo Bartalotti)

Esse tema nos mobiliza porque nos obriga a repensar vários conceitos: de escola, de aprendizado, de sucesso e de docência. Estes conceitos são construídos na nossa experiência de vida, como alunos e professores. A experiência que vivemos como alunos, e a que vivemos até pouco tempo como educadores não era inclusiva. A inclusão nos pegou de certa forma desprevenidos.
A discussão é: qual a qualidade das inclusões que estão acontecendo nas escolas?
Existem inclusões precárias, marginais e instáveis. Que significado esses tipos de inclusões tem na vida do sujeito?

Para termos uma inclusão em todos os sentidos é necessário haver a democratização dos espaços sociais, ter a diversidade como valor e uma sociedade para todos.

Portanto, incluir não é só colocar junto! É respeitar a diferença como constitutiva do ser humano.
O valor, positivo ou negativo, que se atribui à diferença é algo construído nas relações humanas.
Dessa forma, a questão central da inclusão não está na diferença em si, mas no valor a ela atribuído.

Inclusão na Escola:

Para pensar a inclusão na escola temos que superar a lógica de agrupar os iguais.
A sala de aula é espaço de diferença, de heterogeneidade.

Quando falamos de escola inclusiva, falamos de cidadania.
A lei garante apenas o direito, a inclusão efetiva fica por conta da escola.

Princípios básicos para a inclusão na escola:
  • Todos são capazes de aprender;
  • Nós somo capazes de ensinar a todos.
No entanto, nem todos aprendem da mesma forma, ao mesmo tempo, a mesma coisa.
Há diferenças no processo que precisam ser respeitadas.

Então, respeitar a diferença no processo é respeitar a diferença no resultado, é repensar o conceito de sucesso na escola. Romper com a idéia de sucesso homogêneo. Precisamos individualizar o olhar sobre o sucesso. Temos que descobrir o sucesso para cada um. Não se trata de nivelar por baixo, mas respeitar a sua individualidade.

Cotidiano da escola inclusiva:

Relações criança-criança:
  • aprendizagem inter-pares;
  • proporcionar espaços de aprendizagem cooperativa que possibilitem às crianças trocar informações, serem parceiros
Cooperação criança-criança e a mediação do professor:
  • simplesmente colocar as crianças lado a lado não garante interações positivas;
  • a mediação do professor é essencial para que todas as crianças possam tirar o mauior proveito possível da parceria.
Cooperação e organização da sala de aula:
  • presença de regras claras;
  • respeito mútuo;
  • aceitação e compreensão das necessidades do outro;
  • processo aberto e dinâmico de negociação onde o aluno se sente responsável e participante.
Cooperação entre educadores:
  • a escola inclusiva deve se constituir numa real comunidade escolar inclusiva desde a construção do seu Projeto pedagógico;
  • deve ter claro para todos: quais objetivos tem, que projetos propõe para que estes objetivos sejam alcançados, como as várias turmas e todos os alunos podem participar desse projeto
Incluir e ensinar não é fácil. Exige transformação na escola e no fazer do educador.

O educador não pode ver a deficiência como sinônimo de "menos". Pois assim tratada, ela passa a idéia de perda, de desvio da norma. Se há perda há algo a ser encontrado, recuperado ou normalizado. Temos então que correr atrás do prejuízo? Tentar tornar a criança com deficiência o mais parecida possível com o que chamamos de normal? Se tivermos essa concepção nosso trabalho já trás consigo o fracasso.

Por outro lado, se vermos a deficiência como diferença significativa (termo usado por Ligia Amaral) compreenderemos as peculiaridades do desenvolvimento humano permeado pela deficiência. Vamos perceber então que ninguém é incluído o tempo todo, pois somos diferentes um do outro. E é isso que nos torna nós mesmos.

Formação na inclusão:

O que não é:
  • uma formação que dá todas as respostas;
  • uma formação que fornece estratégias prontas;
  • uma formação que "habilita" o educador para lidar com todo e qualquer problema em sala de aula.
O que é :
  • uma forma de trabalhar o olhar do educador sobre o aluno;
  • uma forma de informar o educador sobre as peculiaridades de seus alunos;
  • uma forma de ajudar o educador a compreender as necessidades de seus alunos, a saber que tipo de ajuda precisa e onde encontrá-la.
"Na sociedade inclusiva não somos todos iguais, mas celebramos nossas diferenças!"

2 comentários:

Wolney disse...

Oi, gostei do seu resumo. Vou repassar para minhas alunas lerem.

Abraço!

Anônimo disse...

Ensinar é aprender

Ensinar não é transmitir conhecimentos. O educador não tem o vírus da sabedoria. Ele orienta a aprendizagem, ajuda a formular conceitos, a despertar as potencialidades inatas dos indivíduos para que se forme um consenso em torno de verdades e eles próprios encontrem as suas opções.
A etimologia revela que o substantivo aprendizagem deriva do latim "apprehendere", que significa apanhar, apropriar, adquirir conhecimento. O verbo aprender deriva de preensão, do latim "prehensio-onis", que designa o ato de segurar, agarrar e apanhar, prender, fazer entrar, apossar-se de. Ensinar - palavra latina insignīre, quer dizer "marcar, distinguir, assinalar". É a mesma origem de "signo", de "significado". A educação carimba a sociedade que deseja ter!

A principal meta da educação se processa em torno da auto-realização. Logo, ela propõe a reformulação constante de diretrizes obscuras para alcance dos objetivos, comprometidos com a valorização da vida. O professor, como agente de comunicação, transformou-se num dos mais pobres recursos e dos mais ricos. Quando se imagina dono da verdade, rei do currículo, imperador do pedaço, mendiga e se frustra. Quando se apresenta cheio de humildade, de compreensão e vontade de aprender, resplandece e brilha! Os estudantes estão abastecidos por uma carga de informações cuja capacidade de assimilação nem comporta. O ser humano tem potência de semideus, com emoções de mortal. O avanço da era espacial em que vive tornou o homem angustiado pela consciência de sua fragilidade para absorver e superar os desafios à sua volta.
É mister que se reestruture o conceito de Escola ou se reconheça a sua derrota. Os que nela atuam não podem continuar a caminhar distantes da realidade, em marcha lenta, alheios à corrida veloz de um planeta visível, palpável e cada vez mais próximo. Do jeito que alguns se comportam, concorrem para o fracasso. Repetindo uma expressão muito antiga, “a Escola não sabe a força que ela tem”.
Deve-se abolir, de imediato, a cultura do supérfluo, selecionando conteúdos mais significantes e atuais. Não se pode contribuir para que o desinteresse se instale e, conseqüentemente, esvazie o espaço da aprendizagem permanente. O educador deve se preparar para estar apto perante a onipotência da máquina, e não se assustar com a sua eficiência. Estar sempre atento aos transbordamentos da ciência e não se embrutecer na resposta.
De que valem as "reformas" educacionais, se mudanças radicais não ocorrem? Elas passam, os problemas maiores continuam, gerações se substituem e, no universo de perguntas não respondidas, resultados positivos não se operam, muitas vezes.
Os enlatados culturais intoxicam como os outros, se transformam em "pacotes culturais" e saem por aí, empacotando a sensibilidade, a criatividade, que tanto contaminam a educação. Um exemplo? Entende-se barulho como música! Poesia como cafonice, família como utopia, Pátria como sucata.
Quem ama educa, educar é educar-se a cada dia, sem a pretensão de preparar para a vida. O poder de adivinhar o futuro o educador não o possui. Ele orienta, para que, em situações imprevisíveis, se processem alternativas. Educar não é ensinar, é aprender.

Ivone Boechat